segunda-feira, 10 de março de 2014

Fotoidentificação aplicada a estudos de cetáceos

             


               AUTORA DO ARTIGO   

Bianca Cruz Morais
Bióloga do setor de fotoidentificação do Instituto Boto Cinza
            e-mail: bianca@institutobotocinza.org

COMO CITAR ESTE ARTIGO
Morais, B. C. (2014). "Fotoidentificação aplicada a estudos de cetáceos" . Site Fotografia Científica. Disponível em  
http://www.fotocientifica.com/2014/03/fotoidentificacao-aplicada-ao-estudo-de.html. Acesso em xx/xx/xxx.


      A fotoidentificação é uma técnica de pesquisa que permite a identificação (e distinção) dos animais a partir de marcas naturais, registradas por meio de fotografias. Como uma alternativa à técnica de marcação e recaptura (na qual o animal precisa ser contido, inserida uma marcação artificial e acompanhado, podendo envolver novas capturas), a fotoidentificação é considerada não invasiva, uma vez que não se entra em contato direto com o animal para conseguir identificá-lo. Ela baseia-se no fato de que os indivíduos são diferentes e cada um apresenta um padrão de coloração, manchas, pintas, listras ou até mesmo cicatrizes que permitem a distinção entre si. Não existe na natureza um conjunto de marcas que seja idêntico a outro. Desta forma, a fotoidentificação é aplicável em uma série de espécies terrestres e aquáticas: zebras, onças-pintadas, girafas, elefantes, leões, chimpanzés, tubarões, tartarugas-marinhas, meros etc.


Na Cetologia (estudo dos cetáceos), a fotoidentificação é uma das técnicas mais difundidas e pode ser aplicada a diversas espécies: as baleias jubarte, que são reconhecidas pelo padrão de coloração da parte ventral da nadadeira caudal e pelo contorno serrilhado da mesma; as baleias francas apresentam um padrão único de distribuição das calosidades (áreas de espessamento natural da pele nas quais crescem cracas e piolhos de baleias, ambos crustáceos) em sua cabeça; e para a maioria das espécies de golfinhos, utiliza-se o padrão de cicatrizes em sua nadadeira dorsal, adquiridas principalmente durante as interações sociais com outros membros do grupo.

Cicatrizes presentes nas nadadeiras dorsais de botos-cinza (Sotalia guianensis), que permite a identificação dos indivíduos.


A distinção entre os indivíduos fornece uma variedade de informações científicas. Muito já se sabe sobre as migrações das grandes baleias por reconhecimento dos indivíduos em áreas de alimentação e de reprodução. A estrutura social pode ser entendida através do acompanhamento dos animais de um mesmo grupo e identificando, em longo prazo, se eles continuam juntos ou se misturam com outros dentro da população. Registrando-se um filhote marcado, pode-se acompanhar o seu crescimento e aspectos de sua história de vida. É possível inferir sobre prováveis fêmeas na população, quando os indivíduos marcados são visto sucessivas vezes com filhotes, e assim gera-se conhecimento sobre intervalos reprodutivos e tempo de cuidado parental. Ainda podemos realizar estimativas populacionais (número de indivíduos que habitam uma área), estimar o tamanho da área de vida (áreas utilizadas pelo animal para desenvolver suas atividades básicas), padrões de residência e fidelidade de área (se os animais são residentes ou migratórios e se eles retornam aos mesmos locais ao longo do tempo) e aspectos de saúde populacional (identificando possíveis doenças, pelo padrão de lesões de pele, circulando em uma ou entre populações).

A geração desse conhecimento, contudo, é apenas segura se considerarmos fotos de boa qualidade. O processo de triagem e separação de fotografias é tão fundamental e minucioso quanto o trabalho de campo. O processo de escolha das fotos apropriadas deve ser bastante criterioso, considerando um foco nítido, bom contraste entre o animal e o mar e o ângulo da fotografia. A identificação errônea irá gerar falso-positivos (considerar dois animais como sendo um único) ou falso-negativos (identificação de um mesmo indivíduo como sendo dois distintos). Erros podem causar grandes vieses nas estimativas populacionais que poderiam ajudar a decidir se uma determinada espécie deve entrar na lista de ameaçada de extinção. Diversos softwares foram desenvolvidos por pesquisadores para facilitar a triagem e identificação dos animais, dentre os quais podemos citar o Darwin ( http://darwin.eckerd.edu/) e o Discovery ( http://www.biosch.hku.hk/ecology/staffhp/lk/Discovery/).

O trabalho de fotoidentificação em cetáceos começou na década de 1960 e por muitos anos foi realizado com câmeras analógicas e filmes fotográficos, sendo um processo demorado e custoso. Com o advento da fotografia digital, a facilidade da coleta e análise de dados intensificou os trabalhos ao redor do mundo. Contudo, a compra de um bom equipamento ainda é um investimento caro, podendo variar entre R$ 5.000,00 e R$ 10.000,00. Para fotografar golfinhos de pequeno porte como o boto-cinza, o equipamento mais adequado é uma câmera profissional SRL com disparo rápido e uma lente de zoom 100-400 mm, com a fotografia sendo realizada sempre em zoom máximo, para obtenção de maiores detalhes da nadadeira.



Equipamentos adequados para realizar a fotoidentificação. Câmera profissional digital SRL e lentes com zoom 100-400 mm.


A fotoidentificação é uma ferramenta utilizada desde o início dos estudos do Instituto Boto Cinza, em 1997, com o boto-cinza na baía de Sepetiba. O boto-cinza é uma das menores espécies de golfinhos, com tamanho médio de 1,80 m, com hábitos costeiros e estuarinos, ocorrendo desde Honduras (América Central) até Santa Catarina (sul do Brasil). Atualmente, temos mais de 800 botos identificados por meio de fotografias, representando um dos maiores catálogos para espécie e alguns indivíduos já vêm sendo registrados há mais de 15 anos na região. Estimativas preliminares de abundância indicam que existam mais de 1.200 animais residindo na Baía de Sepetiba, nossa área de estudo, localizada no litoral sul do estado do Rio de Janeiro.




Instituto Boto Cinza
Tel: 55 21 7858-5072 ID 83*11430





domingo, 6 de outubro de 2013

A História do Festival Mundial de Imagens Submarinas

O Festival Mundial de Imagens submarinas (Festival Mondial de l'Image Sous-Marine) chega em 2014 à sua quadragésima edição, sendo considerado o evento mais importante e tradicional do mundo na área de imagens submarinas (Figura 1). http://www.underwater-festival.com/en/home.html

Tudo começou em 1973, quando o clube de mergulho "Spondyle", presidido pelo francês Daniel Mercier, ofereceu aos seus membros que expusessem suas fotos submarinas produzidas durante o ano. Assim surgiram as "Jornadas Mundias Submarinas", presididas, na primeira edição, pelo famoso capitão Jacques-Yves Cousteau.

Nos anos seguintes o evento se expande, vários profissionais de filmes e fotografias submarinas se interessam pelo evento, ele se internacionaliza e em 1979, passa a se chamar Festival Mundial de Imagens Submarinas.

O evento foi sendo progressivamente enriquecido com competições, conferências e debates e hoje é muito mais que uma mostra de imagens, tendo um grande papel na sensibilização da sociedade sobre a importância da conservação dos oceanos. Em 2012, o evento recebeu mais de 10.000 pessoas em Marselha.


Figura 1 - Cartaz do evento de 2013
   
Em 2013, o Brasil vai ter um espaço para mostrar o evento que ocorreu aqui em 2012. O I Encontro Franco Brasileiro de Imagens Submarinas. Coordenado pela Universidade Federal do Paraná e pelo mergulhador Francês Pierre Passot, o evento trouxe ao Brasil fotógrafos e pesquisadores franceses e brasileiros e mostrou aos visitantes uma mescla de arte, cultura e ciência com mais de 5.000 visitantes (Figuras 2). http://www.fotocientifica.com/2012/11/i-encontro-franco-brasileiro-de-imagens.html

Figura 2 - Cartaz do evento no Brasil

Aguardem para os próximos posts, fotos, histórias e notícias diretamente do evento em Marselha.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Curso "O Uso da Fotografia no Ensino de Biologia"

Nos dias 25 de setembro, 02 e 09 de outubro de 2013 ocorre em Curitiba o Curso "O Uso da Fotografia no Ensino de Biologia". 

Com duração de 30 horas, o curso é uma parceria entre a Universidade Federal do Paraná e a Secretaria de Estado da Educação do Paraná.

São 30 professores da rede pública de ensino que terão aulas teóricas e práticas com o prof. Carlos Eduardo Belz da UFPR, a profa. Patrícia Acioli Carvalho e o prof. Cleverson Luiz Voitach da SEED.


Turma do curso no primeiro dia de aula

domingo, 12 de maio de 2013

Minicurso Fotografia Científica Básica - Boa Vista, Roraima


Entre os dias 06 e 10 de maio de 2013 ocorreu em Boa Vista, capital do Estado de Roraima, o II Encontro de Educação e Ciência, organizado pela Universidade Estadual de Roraima. 

Dentro de uma diversa programação, ocorreu o minicurso de fotografia científica básica, ministrado pelo Prof. Carlos Eduardo Belz, da Universidade Federal do Paraná. 

O curso teve duração de 20 horas, com conteúdo teórico e prático, debate com grandes nomes da fotografia do Norte do Brasil e a organização de uma exposição fotográfica com trabalhos produzidos pelos alunos durante o curso.

Os alunos tiveram a oportunidade de trocar experiências e conversar com integrantes de dois importantes movimentos fotográficos do norte do Brasil.
Fotoclube Roraima - https://www.facebook.com/FotoclubeRoraima
Fotoclube Lentes da Amazônia - http://www.lentesdaamazonia.com.br/

Alguns alunos que fizeram o curso também estão desenvolvendo um blog de fotografia que tem tudo para ser um importante veículo de divulgação da fotografia científica na região.
http://www.clickbio.blogspot.com.br  

 
 
Aula prática pela cidade de Boa Vista
 
 
Mesa redonda com importantes fotógrafos da região norte do Brasil

Organização da exposição fotográfica




sexta-feira, 23 de novembro de 2012

I Encontro Franco Brasileiro de Imagens Submarinas


Ocorre em Matinhos, Paraná, de 21 a 25 de novembro de 2012, o

 
I Encontro Franco Brasileiro de Imagens Submarinas.

 
O evento já acontece na França há 38 anos e é a primeira vez que vem ao Brasil. Está sendo organizado pelo Setor Litoral e pelo Centro de Estudos do Mar, ambos da Universidade Federal do Paraná, com coordenação de Sonia Mara Saldanha Bach, Rodrigo Reis e Carlos Eduardo Belz, da UFPR e curadoria do Frances Pierre Passot, um dos pioneiros na divulgação da vida submarina. Passot é mergulhador profissional, escafandrista e instrutor de mergulho. Trabalhou com projetos científicos e atravessou o oceano atlântico em um barco salva vidas.

O encontro tem a participação de grandes fotógrafos do ambiente marinho, que estão expondo mais de 100 fotos. Tem a participação especial de Dominique Serafini, ex membro da Calypso e desenhista das revistas que contaram as aventuras de Jacques Cousteau por 20 anos.

O evento também conta com uma programação científica com palestras e mesas redondas sobre o ambiente marinho.

 
 
Acompanhe a programação pelo blog do evento
 
Pelo blog de Pierre Passot
 



quinta-feira, 16 de agosto de 2012

19 de Agosto - Dia Mundial da Fotografia

A celebração da data tem origem na invenção do daguerreótipo, um processo fotográfico desenvolvido por Louis Daguerre em 1837.

Em janeiro de 1839, a Academia Francesa de Ciências anunciou a invenção do daguerreótipo e a 19 de agosto do mesmo ano o Governo Francês considerou a invenção um presente à humanidade.

Primeira fotografia de um Eclipse ocorrido em 28 de julho de 1851 utilizando a técnica do daguerreótipo


Outro processo fotográfico, o calótipo, também foi inventado em 1839 por William Fox Talbot, fazendo com que o ano de 1839 fosse considerado o ano da invenção da fotografia.

A melhor maneira de comemorarmos essa data é fotografando.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Como Trabalhar o Foco em Macro e Microfotografia




AUTOR DO ARTIGO

Carlos Eduardo Belz
Universidade Federal do Paraná
Centro de Estudos do Mar - CEM
Pontal do Paraná, Paraná, Brasil
Autor deste Blog


COMO CITAR ESTE ARTIGO

BELZ, C. E. 2012. “Como Trabalhar o Foco em Macro e Microfotografia”. Site Fotografia Científica. Disponível em http://www.fotocientifica.com/2012/05/blog-post.html. Acesso em xx/xx/xxxx.



          Produzir uma foto bem focada e nítida é sempre uma tarefa difícil. As dificuldades aumentam em fotos de objetos em movimento, ou com pouca luz. Para minimizar esse problema é importante conhecer bem os conceitos de fotografia e o equipamento que você usa.

          Um conceito básico de fotografia é o da relação da Abertura do Diafragma com a Profundidade de Foco. Isto é, quanto mais fechado o diafragma (f/16, f/22), maior a profundidade de foco. Quer dizer que se eu quero registrar uma paisagem e quero que tudo nela esteja em foco, eu preciso fechar bem o diafragma da objetiva. O contrário também é verdadeiro. Se eu desejo desfocar o fundo, por exemplo em um retrato, para valorizar mais a pessoa retratada, eu tenho que usar aberturas bem grandes como f/5.6, f/4, ou maiores ainda se a objetiva permitir. Objetivas bem claras podem chegar a aberturas de f/1.2.

          Na verdade, para que você consiga desfocar bem o fundo, você depende de três fatores: Uma maior abertura do diafragma, uma maior aproximação do objeto a ser fotografado e uma maior distância focal. Estes três fatores estão quase sempre presentes na Macrofotografia e na Microfotografia, o que torna a pouca profundidade de foco, muitas vezes, um problema nestes tipos de fotografia, onde o objeto, com frequência, é retratado com uma parte dele no foco e o restante desfocado. Isto pode ser interessante quando se quer destacar apenas uma parte do objeto, mas do contrário, quando se deseja que tudo esteja no foco, as dificuldades são bem maiores.

          Veja na foto abaixo um exemplo de uma linda fotografia macro, onde somente uma parte no inseto ficou focada.


          Imagine se fosse possível ter controle total sobre o que se quer e o que não se quer deixar no foco em uma foto. Pois existe uma técnica que permite isto. Se chama DOF stacking ou Focus Stacking, que pode ser entendida como empilhamento de imagens com diferentes profundidades de foco. A técnica consiste em registrar várias fotos na abertura mais nítida da lente, que nas DSLRs costuma estar entre f/4 e f/8, cada uma com o foco em uma posição diferente do objeto. Depois, com a utilização de um software específico, se faz a fusão das imagens, gerando uma foto com foco em todos os planos que se deseje.

          Vários softwares já foram desenvolvido, principalmente com finalidades científicas (Veja lista no final da matéria). Até mesmo o Photoshop, a partir da versão CS4, também pode ser utilizado para esta técnica. 

Como Fazer

          Como o tema será registrado várias vezes, para depois ser somado em uma única imagem, é importante manter alguns ajustes fixos, como a mesma exposição, o mesmo enquadramento e utilizar um tripé, com disparador automático. Se não tiver um disparador, pode utilizar o temporizador da câmera. Com tudo isso acertado, é hora de ajustar o foco. Ele deve ser ajustado manualmente. Ajuste o foco para a posição mais próxima de você e registre a (Foto 1), depois, lentamente, gire o anel de foco para que a imagem fique nítida em um ponto logo depois do que na primeira foto e registre a (Foto 2). Repita esta sequência quantas vezes desejar, até que todos os planos de foco que deseja incluir na imagem sejam fotografados. Algumas fotos são feitas com mais de 50 imagens, mas você também pode utilizar apenas duas ou três. Depende do que deseja.

          Depois é só transferir estas imagens para o computador e utilizar o software que escolher. Assista no link abaixo um tutorial que mostra como fazer isto no Photoshop CS5.


Vejam alguns resultados desta técnica.